Isso sim é ménage à trois! – Sobra number 3

Continuando com as sobras, vamos para a terceira. Agora temos a entrevista com Marco Gonçalves. Aproveitem:

 

“Improvisação é como um esporte: quanto mais gente praticar, mais gente vai conhecer, se interessar e aí se firma como linguagem”

 

Não era nem pra ser com ele. E o cidadão sabe disso. Mas quis alguém que fosse assim. No dia 26 de março, enquanto aguardava Márcio Ballas no Tuca, aproveitei para entrevistar Marco Gonçalves, que estava por ali, aquecendo para apresentação no mesmo dia. Afinal, ele é o palhaço-atleta Fonseca do JOGANDO NO QUINTAL e improvisador de CALEIDOSCÓPIO e IMPROVÁVEL. Quer mais? O cara tem é muita propriedade pra falar dos três espetáculos de impro em cartaz no teatro da PUC (Pontifícia Universidade Católica), um feito raro. Não só não me arrependi, como vi o absurdo de não tê-lo colocado no rol de entrevistados para a matéria da BRASILEIROS. É que o destino sabia da minha sina: encontrar mais uma pessoa maravilhosa pela frente quando menos esperasse – o bom da vida. Veja o que saiu da entrevista de meia hora no terraço do Tuca.

O que você acha de o Tuca estar recebendo três espetáculos de improvisação?
É uma linguagem nova no Brasil. Canadá, vários países da América do Sul, da Europa, já tem a improvisação nesse formato, que é a improvisação como fim, o espetáculo de improvisação, há muito tempo. E no Brasil não tem nem há oito anos. Por isso eu acho muito legal essa reunião. É como um esporte, quanto mais gente praticar, mais gente vai conhecer, se interessar e isso se firma como linguagem, o que nos interessa. Porque como amamos a improvisação, queremos mais é que se perpetue. Esse é o grande barato, esse boom pra nós é sensacional. Acho incrível o Tuca nos receber. Não é uma coisa óbvia que um teatro aceite assim, fácil. Porque às vezes não quer ser atrelado a uma linguagem teatral. Mas acho que o pessoal do Tuca, felizmente, sacou que, embora de improvisação, os espetáculos são muito diferentes uns dos outros. Embora sejam, em termos, iguais, tem diferentes formas de improvisar. É bom porque quem ver improvisação vem aqui no Tuca, seja no Tucarena ou no Tucão.

Qual a importância do Jogando no Quintal nessa história toda, de abrir as portas da improvisação e do Tuca?
O Jogando vem de uma escola de humor que é a escola do palhaço. Os palhaços já são improvisadores por natureza. Num espetáculo de palhaço, seja de rua, seja de teatro, o palhaço não vai poder ignorar nada que acontece na platéia. Toca um telefone, alguém espirra ou uma criança chora, você para para ver o que é. A linguagem da máscara do palhaço incita que você se relacione com tudo, então todo palhaço é um improvisador. O Jogando, pelo núcleo de palhaços que fazia um jogo de improvisação, sem quase ter referência desses espetáculos internacionais que já existem há muito tempo, foi galgando um caminho. E foi muito legal porque o Jogando permitiu que o Brasil fosse representado lá fora, porque a gente viajou pra alguns festivais. Viajamos pra fazer improvisação do nosso jeito, porque também não fazemos como os estrangeiros fazem. E o bacana é que outras pessoas do segmento de comédia também se interessaram por fazer improvisação e acho que quanto mais gente fizer, melhor. O Jogando foi decisivo porque abriu as portas. Agora tem um monte de gente fazendo e tem mais é que estourar isso.

E o Caleidoscópio, parece que vocês perderam um longo tempo preparando o espetáculo, né?
Na verdade, fizemos um ano e meio de preparação do espetáculo. Partimos do zero e fomos tentar buscar uma nova praia, um novo estilo de improvisar que não fosse a reprodução do Jogando. Tentamos um formato de improvisações mais compridas e sem a figura do palhaço. O espetáculo tinha um norte quando a gente começou a ensaiar e que mudou muitas vezes. A gente tinha uma abordagem que era resquício do Jogando, muito mais descontraída, que procuramos formalizar um pouco. Nesse um ano e meio de preparação ficamos três meses ensaiando o espetáculo de um jeito, voltou a estaca zero, mudou. Então, dentro desse processo a gente foi bastante flexível, procurando investigar muito as formas de fazê-lo. Passamos por muitos formatos até chegar a este que está em cartaz.

Todos do Caleidoscópio são também do Jogando
No primeiro formato, ainda contávamos com o César Gouvêa, que é o outro diretor do Jogando, e o Cris [Cristiano Meireles, músico-improvisador] não estava, eu era o músico. O César foi na investigação do Mágico de Nós e saiu do Caleidoscópio. Eu sai da música, que adorava fazer, mas estava muito a fim de improvisar, estava trabalhando muito em cena. Para mim foi uma troca feliz e foi só essa mudança no inicio. Mas quem levantou esse espetáculo mesmo é quem está agora fazendo. Fizemos uma apresentação no festival de Belo Horizonte, em que não estávamos nas condições já definitivas de luz, mas com o formato decidido. E foi muito legal esse teste. Depois tivemos uma estreia em São Paulo [Sala Crisantempo, na Vila Madalena], em dezembro, e então entramos em cartaz. E da primeirona até agora está mais apropriado com o formato do espetáculo. Está sendo muito legal.

No Caleidoscópio, muitas vezes eu tive dificuldade em perceber logo de cara do que se tratava determinada improvisação…
Essa é uma das coisas que nós determinamos. Ao contrário do Jogando, que tem uma relação muito literal entre colher o tema da platéia e fazer, pensamos em deixar um pouco mais misteriosa a relação entre o que o público sugere e o que queremos fazer.  Como as cenas são mais compridas, seguramos o tema pra que ele venha mais à frente na história e não tão óbvio. Isso é o que faz com que o espetáculo não seja o tempo inteiro cômico. Tem histórias que não tem uma comédia escrachada como muitas vezes é o Jogando, como é o Improvável, tem um diferencial nesse sentido. Tínhamos dúvidas se a galera ia conseguir entrar na viagem, porque tem histórias não lineares. Nós nos perguntamos: “Será que eles vão acompanhar?”, porque até no ensaio a gente se perdia. Mas, felizmente, até agora o retorno tem sido muito bom, embora as pessoas digam “Olha, estranhei no inicio porque não tem a figura dos palhaços”, mas logo o povo se encanta pela proposta. Uma coisa interessante é perceber que quando você faz uma improvisação no Caleidoscópio uma pessoa sai contando uma historia que viu, outra entendeu outra historia e está valendo também. Porque o sentido das coisas que enxergamos é muito particular, que de uma forma deixa em aberto cada cena. Alguns são bem evidentes e alguns não, e tudo bem, porque a gente não precisa subestimar o público. Ele digere o que está vendo.

E como foi a escolha do pessoal que estava no Jogando para fazer o Caleidoscópio?
Decidimos fazer um espetáculo juntos justamente pela afinidade que já tínhamos. Com os outros também temos, mas parece uma afinidade de criação, de olhar. E esse é um formato em que realmente entramos para fazer o espetáculo sem saber para onde ele vai. E essa insegurança pode parecer muito ruim, mas pode ser encarada de uma forma positiva se você tem muita confiança no outro. Olha, eu ainda não te entendi, mas eu estou aqui com você. No primeiro dia teve uma cena em que uma das respostas à pergunta “Que apelido você já teve?” foi… Bom, deixa eu contar primeiro. Aí o Allan (Benatti) fez uma cena em que ele é um San, um mestre japonê. E eu fiz a cena inteira sem saber sobre o que ele estava falando. Ele só revelou que era o Sancho Pança, um mestre de chupar picolé e sorvete, no fim. E eu achei muito legal porque percebi que é possível fazer uma cena inteira com convicção com um colega sem saber o que está por trás daquilo. E acho que tem uma coisa pra vida, permitindo uma mínima pretensão. Acho que perdemos muito na vida quando queremos ter o controle de tudo. E muita coisa só vai ser possível se você abrir mão desse desejo. A improvisação permite, pede que se divirta e faça um bom trabalho se abrirmos mão desse controle. E o Caleidoscópio tem sido para mim até agora o supra-sumo de criar algo potente, sem controle nenhum.

Por que você acha que foi possível acontecer esse fenômeno, de o Tuca abrir espaço para três espetáculos de improvisação?
Eu não acho que a improvisação veio pra suprir algo que o teatro tradicional não estava suprindo. O papel do teatro tradicional, público e platéia mais separado, tem sua função, sua beleza e sua força. O teatro de improvisação tem uma outra beleza, outra força, outra função, talvez. Eu acho que no geral, nessa sociedade, a pessoa você pode tirar bom proveito se numa sexta-feira à noite, ou numa quinta, conseguir optar por um lugar em que não sabe o que vai acontecer e está indo lá de muito bom grado. Porque é um espetáculo de improvisação, que permite inclusive que não seja bom, as ideias podem ser infelizes. Pode acontecer e as pessoas mesmo assim pagam para ver: eu acho uma coisa incrível! Eu me sinto feliz de ver platéia cheia, as pessoas confiando nos atores. Certeza elas não têm, nem os atores. O voto de confiança é o grande barato.

Nas apresentações em que eu fui do Caleidoscópio, percebi uma tentativa de se chegar a uma grande história, juntando de alguma maneira todos os episódios que vão surgindo. É um objetivo de vocês?
Até isso está um pouco em aberto.  Cada história que a gente abre tem mais ou menos uns 20 minutos. Elas se conectam ou não. Acho que quando são boas, não importa muito se estão conectadas. Buscamos essa conexão: às vezes fica óbvia, às vezes indireta e às vezes não acontece. A meta não é fazer, embora quando aconteça tenha a sua beleza. Assim como podemos fazer quatro história que não tem nada a ver, mas que às vezes o assunto se cruza. Algum cruzamento tem, eu acho, confio um pouco nisso, porque somos nós que estamos fazendo, então tem alguma coisa que não se apaga. Uma historia está aqui, depois eu estou fazendo um outro personagem, mas aquela carga está ali, o povo acabou de ver a história anterior, ele associa uma coisa a outra. Então, eu não tenho frustração quando a ligação fica muito óbvia.

Qual a diferença entre o Fonseca, seu palhaço no Jogando, e você como improvisador no Improvável e no Caleidoscópio?
Tem diferentes aspectos, uns mudam muito e outros mudam pouco. Tem uma vivacidade do palhaço que eu escolhi manter como improvisador. Que é uma energia que valoriza a qualquer coisa, que é capaz ou tem a pretensão de se divertir e dar importância para coisas aparentemente não importantes. Uma diferença básica: o palhaço do Jogando está aberto para pegar a história que foi contada e em função dela fazer uma piada, desvirtuar o sentido da história pela piada. No Caleidoscópio não. No Jogando eu pego uma piada que talvez faça um strike com toda a cena só pra arrancar risada. Um exemplo clássico: estou sendo tratado o tempo todo como mãe de alguém e aí, como sei que o público vai se divertir com isso, eu digo: “Mas eu sou seu pai!”. O público talvez gostasse, mas eu jogaria aquela história fora, jogaria aquela relação toda fora. Estou dizendo para o meu colega que tudo o que você está construindo não é verdade. É uma coisa que eu não busco no Caleidoscópio, essa é uma diferença. A disposição a fazer rir é muito mais forte no Jogando. Embora possa fazer rir sem destruir as histórias que está fazendo, mas essa é uma questão bem interessante.

O Caleidoscópio foi tratado pelo Márcio Ballas como um espetáculo de “humor e lirismo”. O que você acha, é isso mesmo?
Engraçado, poesia eu acho que é uma coisa que nós reconhecemos, não anunciamos. Fazemos alguma coisa e o público reconhece poesia naquilo. Claro, sem hipocrisia, nós buscamos, mas deixamos as coisas acontecerem porque algumas são mais carregadas de poesia. Poesia é 50% do que eu estou propondo e 50% do teu olhar. Tem que ter desejos e olhos para vê-la. Eu acho um espetáculo cômico, de universos excêntricos, pouco óbvios no cotidiano, e a poesia é uma conseqüência, acho que é um espetáculo de humor e poesia. No humor nós somos mais artesão, a poesia é um aspecto que o público completa mesmo.

Como você participa dos três espetáculos é inevitável perguntar: prefere estar em cena em algum?
Exercitar a forma de improvisar do Caleidoscópio me convida a ver o Jogando de uma forma diferente. E o Jogando me ajuda a ver o Caleidoscópio de uma forma diferente. Cada vez de uma forma mais madura, até porque ele é novo. Quando estou fazendo esse um gosto desse um, é a única coisa. Como improvisador a gente é assim. Essa entrevista é a coisa mais importante pra mim agora, porque é o que está acontecendo.

Publicado em: on 24 24UTC Abril 24UTC 2009 at 16:09 Deixe um comentário

Isso sim é ménage à trois! – Sobra number two

Já testamos uma espécie de SUB, que foi a sobra number one do artigo que saiu na BRASILEIROS. Agora, aproveitando tentativa (frustradíssima, diga-se) de adaptar uma entrevista para a última disciplina que me resta na PUC-SP, aproveito para colocar um big bate-bola, bonitinho, editado, como manda o figurino, aqui.

Talvez repita isso com outras entrevistas, que foram bem bacanas. Quem sabe, ainda preciso fazer uma reunião com os meus botões. Fiquem agora com Mariana de Lima Muniz, especialista em impro.

 

‘A qualidade da produção brasileira, apesar de bons e maus exemplos, é destacável’

 

Se há alguém que entende de improvisação no Brasil é Mariana de Lima Muniz. Além do doutorado no tema pela Universidade de Alcalá, na Espanha, é diretora teatral e professora de impro da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Uma das poucas que estuda a fundo o tema por aqui, consequentemente quem melhor pode entender o significado da reunião de três espetáculos de improvisação em um mesmo espaço por dois meses, caso de Jogando no Quintal, Caleidoscópio e Improvável no Tuca (Teatro da Universidade Católica), da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), em março e abril deste ano. Dá uma olhada no que ela comentou sobre o assunto em entrevista por e-mail para moi. 

 

Você já assistiu aos espetáculos de improvisação que estão em cartaz no Tuca: Jogando no Quintal, Caleidoscópio e Improvável? Se sim, gostaria que falasse um pouco dos espetáculos, o que une e o que os separa, as diferenças e as semelhanças. Enfim, uma breve comparação entre o trio.
Eu assisti aos dois primeiros. Jogando no Quintal é um espetáculo único no universo da impro, assisti a vários espetáculos em diversos países e nunca tive contato com um universo tão anárquico. Acredito que eles conseguem, através da linguagem dos palhaços dar a real liberdade e contato entre público e atores que a impro tanto deseja. Caleidoscópio representa um amadurecimento nas técnicas da impro, na construção de histórias, que não eram foco no Jogando. É um espetáculo delicado que, apesar de não ser de palhaços, mantêm muito dessa liberdade anterior.

 

Qual a importância, o significado da “coincidência” dos três espetáculos de improvisação em cartaz concomitantemente no mesmo espaço? E qual a importância de o encontro acontecer exatamente num teatro tradicional como o Tuca? Já houve alguma reunião de espetáculos de improvisação no mesmo espaço como agora sem ser em festivais?
No Brasil, desconheço. Na Espanha, por exemplo, o Teatro Alfil é o lugar dos espetáculos de impro, é um teatro central e muito conceituado, mas sempre esteve ligado à comédia e ao jogo.

 

Qual o papel, a influência do Jogando no Quintal, primeiro a chegar no Tuca, para que os espetáculos entrassem depois em cartaz no mesmo espaço? Qual a influência do Jogando para o surgimento de novos espetáculos de improvisação?
Acredito que o Jogando é um dos grandes nomes da impro no Brasil e, desde o princípio, eles têm agido como disseminadores desta técnica. Não sei exatamente qual foi a articulação deles com o Tuca, mas, sem dúvida, eles têm conseguido utilizar do prestígio alcançado para fomentar a prática no Brasil.

 

O Jogando no Quintal pode ser considerado o primeiro espetáculo de improvisação a atingir um grande público, a se tornar um sucesso comercial desse segmento? O que explica o êxito da improvisação de palhaços num espetáculo que só cresce e está em cartaz há sete anos?
As coisas tem que ser tomadas com certo cuidado, o fato de o Jogando estar no eixo do Brasil, na principal capital cultural, unido à grande qualidade técnica e humana destes artistas, facilita muito que eles sejam o grande espetáculo que são e os principais promotores da impro no Brasil atualmente. Quero dizer, que não foi realizado, ainda, um estudo sobre os espetáculos de impro no Brasil em profundidade para poder afirmar isso, pode ser que em Salvador, por exemplo, houvesse um espetáculo desta forma, mas não chegou ao resto do país… Existe a questão do eixo cultural que não podemos descartar. Ainda assim, considero Jogando um exemplo de qualidade técnica, capacidade de inovação e de gestão cultural fora do comum. Porque a gestão do grupo, ou da empresa, é outro fator importante para o sucesso deles, eles sabem aliar muito bem a qualidade, a pesquisa à visibilidade do trabalho que eles desenvolvem. Além disso, outra característica a ser destacada é como eles conseguem abrir o campo para outros grupos e não fechá-lo, o que acontece normalmente. 

 

Em que estágio está a improvisação no Brasil: estamos muito atrás de outros países, no mesmo pé ou até mais avançados? O que falta, quais são as deficiências e o que temos de melhor, de bons exemplos de espetáculo?
Acho que a impro no Brasil não está tão difundida como em países como o Canadá, por exemplo, onde os mundiais de Match são retransmitidos pela TV estatal. No entanto, a qualidade da produção brasileira, apesar de bons e maus exemplos, é destacável. Acho especialmente perigoso experiências como o “Quinta categoria” da MTV que transforma a impro em algo totalmente clean, onde o risco é praticamente descartado e tudo gira em volta de um único improvisador, no caso o apresentador do programa. Não sei o quanto isso ajuda ou prejudica a difusão da impro no Brasil. Enfim, acho também que eles estão começando e pode ser que só os tenha visto em dias ruins… Acho que o importante é que os festivais estão acontecendo. O Jogando já fez três aqui em Belo Horizonte, fizemos dois, e esses festivais alimentam os grupos brasileiros e também o público de cada região. Acho que seria interessante que nos aproximássemos mais às nossas raízes improvisacionais, o repente e outros jogos de desafios… No geral, não acho que os nossos espetáculos são inferiores de forma alguma, considero, inclusive que superam em alguns aspectos.

 

O Caleidoscópio é um teatro de improvisação inovador? Já foi feito algo do tipo no Brasil, com improvisações mais longas? 

O Caleidoscópio é um long form, os long forms são feitos desde a década de 80. No Brasil, também temos o Sobre Nós, espetáculo dirigido por mim e que também foi estreado no FIMPRO (Festival de Improvisação) em Belo Horizonte.

 

O crescimento do espaço para improvisação no Tuca tem a ver com o crescimento dos shows de comédia recentemente? Improvisação acaba tendo um quê de comédia ou é apenas uma marca do grupo do Jogando no Quintal e de quem faz improvisação no Brasil?

A Impro sempre esteve relacionada à comédia, é um tipo de espetáculo relacionado à tradição do Teatro Cômico Popular, como a comédia dell’arte, o teatro de feira, o circo, o cabaret. Na maioria dos países impro e comédia estão totalmente relacionados e, inclusive, há quem queira ir além. Nosso último espetáculo, por exemplo, pretende não ser cômico e ir mais para o lado do lírico, do realismo fantástico, mas a comédia e a impro tem uma relação que parte da própria vulnerabilidade do ator diante do público.

 

Que outro grupo de improvisação no Brasil você pode destacar e analisar a importância na cena.
Em Minas, temos alguns exemplos de grupos que trabalham impro. Acómica: apesar de não ser um grupo que trabalha só impro, são um dos pioneiros nesta prática com o espetáculo Arena de Tolos, estreado em 2005. LPI – Liga Profissional de Improvisação – principal disseminadora das técnicas de impro e do Match. Realiza o primeiro Match de Improvisação do Brasil, desde 2006, e agora o long form Sobre Nós. Produz o FIMPRO – Festival Internacional de Improvisação Teatral. Cia Imprópria – Cia de Ouro Preto, realiza um short form de jogos “Carteado” e o long form de um só improvisador “História de Ninguém”. Em Campinas, o Grupo Bartores, no Rio, a Companhia de Teatro Contemporâneo, o Teatro do Nada e o Zenas Improvisadas. Enfim, é o que te disse, muitas coisas estão acontecendo, e não foi feito um estudo criterioso da impro no Brasil, pelo menos não que eu saiba. 

 

 

Publicado em: on 23 23UTC Abril 23UTC 2009 at 17:43 Deixe um comentário

Quem não quer polêmica, vai jogar peteca!

Hoje deu saudade do BETO MITO. Como deu… Bom, pra quem não sabe, é um personagem cômico que eu fazia na TV LANCE!, que tinha como bordão: Quem não quer polêmica, vai jogar peteca!

E eu lembrei justamente porque o meu texto da BRASILEIROS gerou uma polêmica! Mini, mas gerou, vai. O ator Eduardo Semerjian, da peça O FINGIDOR, em cartaz no Tuca, deixou um comentário no último post – aprovado, inclusive – que faço questão de discutir aqui. E não pra dar uma de machão ou senhor da razão, mas pra colocar na roda mesmo. Tanto o ponto de vista dele como o meu. Acho que os dois são válidos, de verdade.

Pra coisa funcionar, segue abaixo o comentário do Eduardo:

“Li sua matéria em Brasileiros sobre as peças em cartaz no TUCA, e queria deixar clara aqui uma indignação: O Fingidor não é um intruso, como se fosse uma peça menor que as relativas à matéria que voce publicou.
O Fingidor está em cartaz há 10 anos, entre idas e vindas, viagens por todo o país, além de chegar a Portugal, ser escolhido pra publicar num livro que foi distribuído para mais de 475.000 alunos da rede pública, e também estar numa edição especial da revista bravo como uma das 60 melhores peças desde que a revista foi criada.
Estamos em cartaz no TUCA sem patrocínio, apesar do auxílio inestimável do próprio teatro e da imprensa oficial, mas todas as outras despesas para se colocar a peça em cartaz foram realizadas com dinheiro do bolso dos produtores.
Eu diria que colocar O Fingidor como um intruso, mesmo que sem intenção de denegri-la, não ajuda em nada a promover a peça. Portanto acho que foi no mínimo dispensável citar O Fingidor em sua matéria, desta maneira que o fez. No máximo, foi prejudicial no sentido de quem lê achar que O Fingidor está no lugar errado.
Um dos jornalistas de Brasileiros foi assistir a O Fingidor, e saiu de lá emocionadíssimo. Voce por acaso assistiu à peça? Creio que não…
Gostaria de pedir então, que quando citar uma peça qualquer, que tome o cuidado de não citá-la de maneira desagradável, sem razão alguma, mesmo sem a intenção e mesmo sem tê-la assistido.
Obrigado.”

E pra ninguém se perder, aí vai o trecho do meu texto a que o Eduardo se refere (em negrito):

“Como alegria de pobre dura pouco, porém, não deu nem pra se sentir dono da casa. Logo na primeira semana de abril veio o primeiro intruso: O Fingidor, que nada tem de impro. Depois, a partir do dia 18, virá mais um: Cyrano. Normal. O Tuca até pode ser considerado por um tempo um centro de improvisação, mas ele não é um centro de improvisação. É por isso que, já em maio, sobrará apenas um representante: o Improvável, que fica até o fim de julho. Jogando no quintal e Caleidoscópio despedem-se no último fim de semana do mês. Pode até ser que retornem, mas ainda não há nada definido. Uma pena, né?”

E agora vamos ao meu glorioso esclarecimento.

Eduardo, claro que a intenção da palavra “intruso” não era denegrir a peça. Apesar do estilo mais solto, não escrevo pra jogar pra baixo qualquer um ou qualquer coisa. Não é do meu feitio. A palavra era uma forma de mostrar que, puxa, por pouco, não fossem vocês, continuaríamos tendo só impro no Tuca, como foi por um tempo. Mas em tom de brincadeira. Não era para soar, ah, droga, malditos asseclas do Yazbek! Nada disso!

Realmente não assisti O FINGIDOR, mas estou louco pra ver. Adorei O INVISÍVEL e sou fã do diretor. E, sinceramente, mesmo se tivesse assistido, gostando ou não, usaria a palavra “intruso” da mesma maneira. Porque pra mim ela não é uma depreciação do trabalho de vocês. É só uma maneira de chamar a atenção – e chamou.

Você tem seu jeitão de atuar, não tem? Num exercício de imaginação bem tosco e raso, imagine que eu sou gay e você está interpretando uma peça qualquer. Eu posso muito bem entender que algum trejeito X seu é preconceituoso e incompatível com muitos gays, como eu. Ok, foi o que eu achei. Posso mandar e-mail e tudo o mais. Mas não significa que você está errado, eu certo, ou que não pode ser do seu jeitão de ver a coisa toda. Pois bem, eu tenho o meu jeitão de escrever. E nele incluem-se essas provocações, essa coisa de fugir do cheio de dedos e diplomático.

Acho que passou pela sua cabeça que eu, veja você, poderia nem ter citado O FINGIDOR. Era uma opção clara, inclusive cogitada durante a labuta. Quer coisa mais simples do que simplesmente dizer que outras peças não de impro entrariam em cartaz no Tuca? Eu sei que esta seria sua opção, mas não foi a minha. Talvez aí nós não estivéssemos tendo essa discussão, mas também, talvez, aí ninguém que leu a matéria por causa de impro ou por qualquer motivo soubesse que existe a peça. Quem garante que o “intruso” não pode ter deixado alguém curioso para saber mais sobre o trabalho de vocês? Ou por que você tem tanta convicção de que a maioria dos leitores vai achar que a obra está em um lugar errado? Às vezes a gente menospreza demais a capacidade de compreensão do público, né. Aposto que nesses seus muitos anos como ator esse debate já apareceu várias vezes. E vale pra essa palavrinha “intruso”. Será mesmo que quem leu não sacou a brincadeira? E quem não sacou, será que são todos mesmo potenciais espectadores que mudaram de ideia? Duvido. Os interessados em O FINGIDOR não desistiriam por causa de uma palavrinha de um zé ninguém como eu.

Enfim, a coisa vai longe e eu acho que por enquanto basta, né. Se quiser a réplica, estamos aí. De verdade, essa foi só uma tentativa de me explicar, o que não é nenhuma obrigação. Isso aqui não tem nada de tentar dar uma de superior ou inconformado. Poderia só aprovar seu comentário e pronto. Mas eu tenho uma mania de culpa judaico-cristã que me faz ser assim. E adorei suas considerações, fizeram com que eu realmente pensasse no assunto. Além de me sentir honrado e digno de uma espinafração em público de um ator do Samir Yazbek.

Agora ainda não é o momento apropriado pra pedir que você me convide para assistir à peça, certo? Bandeira branca!

Abraço,

Raul Andreucci

Publicado em: on 21 21UTC Abril 21UTC 2009 at 16:13 Comentários (4)

Isso sim é ménage à trois! – Sobra number one

Eu disse sábado, né? Quis dizer segunda… Segunda é que começa a entrar o material que não está no site da revista BRASILEIROS. 

….

Eu sei que não colou. Então não reclama: antes tarde do que nunca. Aproveita que só tem mais amanhã – e isso se eu estiver de bom humor e tals, sabe como é, escritor é temperamental e, bom deixa pra lá…

***

 

CONVITE PARA O DESCONHECIDO, MELHOR CONHECIDO COMO A VIDA

 

Pode falar a verdade. Às vezes o senhor, a senhora, esquecem como funcionam as coisas. Não é tudo automático. Nem sempre sai de acordo com o planejado, por mais esforço que se tenha feito para evitar problemas, fracassos ou contratempos. Sabe por quê? Por que a porra da vida é imprevisível. Pode tentar pegar pelos cornos, mesmo com unhas e dentes, mas mesmo com um controle aparente – de alguns tarados por essa certeza de saber onde se pisa, como eu – estaremos sempre diante de um abismo e devemos estar preparados para ficar sem chão.

Não é que devemos estar preparados. Talvez eu tenha falado merda. Porque, na verdade, não há como estar preparado para o inesperado. O que dá é estar ciente de que nem sempre vai acontecer o que se imagina e, opa, não necessariamente é uma catástrofe e, vejamos, o que dá pra fazer com isso que jogaram no nosso colo.

Taí uma das importâncias dos espetáculos de improvisação (se quiser, pode ler antes mais sobre isso em www.revistabrasileiros.com.br/secoes/o-lado-b-da-noticia/noticias/586/). É como me disse a superintendente do Tuca, Ana Salles Mariano: “Improvisação é sempre uma boa aula”. E fica nisso, uma aula – se é que você me entende. Até achei que JOGANDO NO QUINTAL, CALEIDOSCÓPIO e IMPROVÁVEL pudessem produzir um efeito maior nas pessoas, de uma verdadeira e profunda transformação. Claro que eu não sei o que aconteceu com todos que assistiram aos grupos, mas é infantil e utópico demais supor (ou seria querer?) isso.

Quem ajudou a organizar essas ideias na minha cachola foi a Dulce Critelli, terapeuta existencial, professora titular do departamento de Filosofia da PUC-SP e colunista do caderno “Equilíbrio” do jornal Folha de S.Paulo. Ela merece até um parágrafo só pra explicar melhor:

“A gente tem uma vida tão rotineira, tão coordenada, tão fechada, que nem lembra que pode criar. Ali (nos espetáculos) tem um convite pra despertar esse tipo de inovação. E quando há um estímulo dessa natureza sempre uma sementinha é lançada. Mas acho que a cultura brasileira é assim, apaga li. Sai do teatro e vai ser rapidamente consumido pelo comportamento anterior. A força que existe na sociedade pra captação dessa atenção é muito mais forte. É importante que existam esses espetáculos, mas não da pra imaginar que a participação ali vá ser tão eficaz depois, na vida real, do dia a dia das pessoas”.

Sabe como é jornalista. Fui conversar com a Dulce (detalhe: que não conhecia os espetáculos e só pode falar sobre porque enviei alguns links antes do papo) esperando ganhar algumas declarações que falassem da importância da improvisação. Mas jornalista, por mais que às vezes faça involuntariamente, sem querer, vai querendo aquela determinada frase que sonhou na noite anterior e até insiste pra que o entrevistado vomite a sentença. A Dulce não se deixou sucumbir, como acontece com outros. Melhor pra mim – pra nós.

Porque é realmente isso o que acontece. O cidadão vai ao teatro, ri, se diverte (tá com coceira? eu sei que o correto é “diverte-se” mas quero deixar assim, tá!) e, por mais que se toque de algumas coisas, não necessariamente vai mudar suas posturas. Não é dali que vai sair uma revolução de conceitos. Sim, pode acontecer com alguém, mas não é nem essa a proposta dos espetáculos, a de conscientizar a platéia de algo. Márcio Ballas, que está em todas as apresentações, avisou que não há essa pretensão . Talvez seja mesmo mania de estudante da PUC de achar um lado político em tudo, ou sintoma dos nossos tempos, de que tudo parece precisar ter uma utilidade séria. A impro no Tuca mostra que não: que pode ser simplesmente um convite para o inesperado, um oi para o que a gente esqueceu que é a vida, um chamado pra entrar em contato com seu lado mais lúdico ou, quem sabe, pra reparar em tudo e em você. Tô exagerando? Não sei, aí você assiste e me diz – e me corneta o quanto quiser.

por Raul Andreucci

Publicado em: on 20 20UTC Abril 20UTC 2009 at 17:09 Comentários (1)

A primeira vez a gente nunca esquece

Entrou no ar hoje o meu primeiro frila. E como a Internet é uma maravilha, veja vossa senhoria, ainda dá pra ler (!).

O artigo está no site da revista BRASILEIROS e, até o momento, é o principal destaque. E chegou a ser chamada do iG.

Leiam, critiquem, xinguem, comentem e aproveitem a promoção. Juro que amanhã tento colocar a primeira parte da SOBRA. Ando meio atrapalhado com isso aqui ainda. Sei que meus professores de jornalismo ou ex-chefes desaprovariam tanto a confissão quanto a desorganização, mas, enfim, é a realidade. Por enquanto deliciem-se com o PRATO PRINCIPAL:

http://www.revistabrasileiros.com.br/secoes/o-lado-b-da-noticia/noticias/586/

É isso.

Raul Andreucci

Publicado em: on 17 17UTC Abril 17UTC 2009 at 20:40 Deixe um comentário

Valendo!

Está no ar o blog O QUE SOBROU DO FRILA.

Cadê a vibração, gente?

… (grilos)

Bom, vamos dar prosseguimento. Está no ar o blog O QUE SOBROU DO FRILA. Como o próprio nome diz… Não engraçadinho, não é o que sobrou de mim nesse tempo em que estou, hummmm, disponível no mercado. Ainda estou inteiro, viu. Quer dizer, tenho pés, mãos, cabeça… só a conta do banco que anda, digamos, encolhendo…

Enfim, O QUE SOBROU DO FRILA vai trazer é… como eu explico pra vocês… vai trazer o que sobrou dos meus trabalhos como frila. Simples, vai. Ó, pra facilitar, vou dar um exemplo. Eu faço uma reportagem – tô na área, hein, quem quiser pedir mais é só mandar um e-mail pra raulandreucci@hotmail.com e .. bom, depois eu dou mais detalhes…

Recapitulando: eu faço uma reportagem e coloco aqui o que não foi utilizado. Entram nessa conta íntegras de entrevista (por texto mesmo, áudio ou vídeo, não vamos pensar pequeno, meu povo!); as subs, reportagens secundárias que aquele editor maldito não aceitou ou cortou (brincadeira! adoro todos os meus chefes frilas! juro!);  making ofs das matérias; fotos que não entraram; enfim, qualquer coisa que me der na telha ou achar pertinente.

Gostou? Então indica pros amigos, pros inimigos, pra vó, pro tio, pro papagaio, todo mundo. Qualquer dúvida, angústia, doação de dinheiro, agendamento de programa (vale-tudo, né, gente), é só mandar e-mail para raulandreucci@hotmail.com

Esta semana já vamos ter o primeiro rescaldo. Prometo pelo padroeiro dos frilas, o…é, você sabe qual é.

É isso.

Raul Andreucci

Publicado em: on 13 13UTC Abril 13UTC 2009 at 21:49 Comentários (1)