Continuando com as sobras, vamos para a terceira. Agora temos a entrevista com Marco Gonçalves. Aproveitem:
“Improvisação é como um esporte: quanto mais gente praticar, mais gente vai conhecer, se interessar e aí se firma como linguagem”
Não era nem pra ser com ele. E o cidadão sabe disso. Mas quis alguém que fosse assim. No dia 26 de março, enquanto aguardava Márcio Ballas no Tuca, aproveitei para entrevistar Marco Gonçalves, que estava por ali, aquecendo para apresentação no mesmo dia. Afinal, ele é o palhaço-atleta Fonseca do JOGANDO NO QUINTAL e improvisador de CALEIDOSCÓPIO e IMPROVÁVEL. Quer mais? O cara tem é muita propriedade pra falar dos três espetáculos de impro em cartaz no teatro da PUC (Pontifícia Universidade Católica), um feito raro. Não só não me arrependi, como vi o absurdo de não tê-lo colocado no rol de entrevistados para a matéria da BRASILEIROS. É que o destino sabia da minha sina: encontrar mais uma pessoa maravilhosa pela frente quando menos esperasse – o bom da vida. Veja o que saiu da entrevista de meia hora no terraço do Tuca.
O que você acha de o Tuca estar recebendo três espetáculos de improvisação?
É uma linguagem nova no Brasil. Canadá, vários países da América do Sul, da Europa, já tem a improvisação nesse formato, que é a improvisação como fim, o espetáculo de improvisação, há muito tempo. E no Brasil não tem nem há oito anos. Por isso eu acho muito legal essa reunião. É como um esporte, quanto mais gente praticar, mais gente vai conhecer, se interessar e isso se firma como linguagem, o que nos interessa. Porque como amamos a improvisação, queremos mais é que se perpetue. Esse é o grande barato, esse boom pra nós é sensacional. Acho incrível o Tuca nos receber. Não é uma coisa óbvia que um teatro aceite assim, fácil. Porque às vezes não quer ser atrelado a uma linguagem teatral. Mas acho que o pessoal do Tuca, felizmente, sacou que, embora de improvisação, os espetáculos são muito diferentes uns dos outros. Embora sejam, em termos, iguais, tem diferentes formas de improvisar. É bom porque quem ver improvisação vem aqui no Tuca, seja no Tucarena ou no Tucão.
Qual a importância do Jogando no Quintal nessa história toda, de abrir as portas da improvisação e do Tuca?
O Jogando vem de uma escola de humor que é a escola do palhaço. Os palhaços já são improvisadores por natureza. Num espetáculo de palhaço, seja de rua, seja de teatro, o palhaço não vai poder ignorar nada que acontece na platéia. Toca um telefone, alguém espirra ou uma criança chora, você para para ver o que é. A linguagem da máscara do palhaço incita que você se relacione com tudo, então todo palhaço é um improvisador. O Jogando, pelo núcleo de palhaços que fazia um jogo de improvisação, sem quase ter referência desses espetáculos internacionais que já existem há muito tempo, foi galgando um caminho. E foi muito legal porque o Jogando permitiu que o Brasil fosse representado lá fora, porque a gente viajou pra alguns festivais. Viajamos pra fazer improvisação do nosso jeito, porque também não fazemos como os estrangeiros fazem. E o bacana é que outras pessoas do segmento de comédia também se interessaram por fazer improvisação e acho que quanto mais gente fizer, melhor. O Jogando foi decisivo porque abriu as portas. Agora tem um monte de gente fazendo e tem mais é que estourar isso.
E o Caleidoscópio, parece que vocês perderam um longo tempo preparando o espetáculo, né?
Na verdade, fizemos um ano e meio de preparação do espetáculo. Partimos do zero e fomos tentar buscar uma nova praia, um novo estilo de improvisar que não fosse a reprodução do Jogando. Tentamos um formato de improvisações mais compridas e sem a figura do palhaço. O espetáculo tinha um norte quando a gente começou a ensaiar e que mudou muitas vezes. A gente tinha uma abordagem que era resquício do Jogando, muito mais descontraída, que procuramos formalizar um pouco. Nesse um ano e meio de preparação ficamos três meses ensaiando o espetáculo de um jeito, voltou a estaca zero, mudou. Então, dentro desse processo a gente foi bastante flexível, procurando investigar muito as formas de fazê-lo. Passamos por muitos formatos até chegar a este que está em cartaz.
Todos do Caleidoscópio são também do Jogando…
No primeiro formato, ainda contávamos com o César Gouvêa, que é o outro diretor do Jogando, e o Cris [Cristiano Meireles, músico-improvisador] não estava, eu era o músico. O César foi na investigação do Mágico de Nós e saiu do Caleidoscópio. Eu sai da música, que adorava fazer, mas estava muito a fim de improvisar, estava trabalhando muito em cena. Para mim foi uma troca feliz e foi só essa mudança no inicio. Mas quem levantou esse espetáculo mesmo é quem está agora fazendo. Fizemos uma apresentação no festival de Belo Horizonte, em que não estávamos nas condições já definitivas de luz, mas com o formato decidido. E foi muito legal esse teste. Depois tivemos uma estreia em São Paulo [Sala Crisantempo, na Vila Madalena], em dezembro, e então entramos em cartaz. E da primeirona até agora está mais apropriado com o formato do espetáculo. Está sendo muito legal.
No Caleidoscópio, muitas vezes eu tive dificuldade em perceber logo de cara do que se tratava determinada improvisação…
Essa é uma das coisas que nós determinamos. Ao contrário do Jogando, que tem uma relação muito literal entre colher o tema da platéia e fazer, pensamos em deixar um pouco mais misteriosa a relação entre o que o público sugere e o que queremos fazer. Como as cenas são mais compridas, seguramos o tema pra que ele venha mais à frente na história e não tão óbvio. Isso é o que faz com que o espetáculo não seja o tempo inteiro cômico. Tem histórias que não tem uma comédia escrachada como muitas vezes é o Jogando, como é o Improvável, tem um diferencial nesse sentido. Tínhamos dúvidas se a galera ia conseguir entrar na viagem, porque tem histórias não lineares. Nós nos perguntamos: “Será que eles vão acompanhar?”, porque até no ensaio a gente se perdia. Mas, felizmente, até agora o retorno tem sido muito bom, embora as pessoas digam “Olha, estranhei no inicio porque não tem a figura dos palhaços”, mas logo o povo se encanta pela proposta. Uma coisa interessante é perceber que quando você faz uma improvisação no Caleidoscópio uma pessoa sai contando uma historia que viu, outra entendeu outra historia e está valendo também. Porque o sentido das coisas que enxergamos é muito particular, que de uma forma deixa em aberto cada cena. Alguns são bem evidentes e alguns não, e tudo bem, porque a gente não precisa subestimar o público. Ele digere o que está vendo.
E como foi a escolha do pessoal que estava no Jogando para fazer o Caleidoscópio?
Decidimos fazer um espetáculo juntos justamente pela afinidade que já tínhamos. Com os outros também temos, mas parece uma afinidade de criação, de olhar. E esse é um formato em que realmente entramos para fazer o espetáculo sem saber para onde ele vai. E essa insegurança pode parecer muito ruim, mas pode ser encarada de uma forma positiva se você tem muita confiança no outro. Olha, eu ainda não te entendi, mas eu estou aqui com você. No primeiro dia teve uma cena em que uma das respostas à pergunta “Que apelido você já teve?” foi… Bom, deixa eu contar primeiro. Aí o Allan (Benatti) fez uma cena em que ele é um San, um mestre japonê. E eu fiz a cena inteira sem saber sobre o que ele estava falando. Ele só revelou que era o Sancho Pança, um mestre de chupar picolé e sorvete, no fim. E eu achei muito legal porque percebi que é possível fazer uma cena inteira com convicção com um colega sem saber o que está por trás daquilo. E acho que tem uma coisa pra vida, permitindo uma mínima pretensão. Acho que perdemos muito na vida quando queremos ter o controle de tudo. E muita coisa só vai ser possível se você abrir mão desse desejo. A improvisação permite, pede que se divirta e faça um bom trabalho se abrirmos mão desse controle. E o Caleidoscópio tem sido para mim até agora o supra-sumo de criar algo potente, sem controle nenhum.
Por que você acha que foi possível acontecer esse fenômeno, de o Tuca abrir espaço para três espetáculos de improvisação?
Eu não acho que a improvisação veio pra suprir algo que o teatro tradicional não estava suprindo. O papel do teatro tradicional, público e platéia mais separado, tem sua função, sua beleza e sua força. O teatro de improvisação tem uma outra beleza, outra força, outra função, talvez. Eu acho que no geral, nessa sociedade, a pessoa você pode tirar bom proveito se numa sexta-feira à noite, ou numa quinta, conseguir optar por um lugar em que não sabe o que vai acontecer e está indo lá de muito bom grado. Porque é um espetáculo de improvisação, que permite inclusive que não seja bom, as ideias podem ser infelizes. Pode acontecer e as pessoas mesmo assim pagam para ver: eu acho uma coisa incrível! Eu me sinto feliz de ver platéia cheia, as pessoas confiando nos atores. Certeza elas não têm, nem os atores. O voto de confiança é o grande barato.
Nas apresentações em que eu fui do Caleidoscópio, percebi uma tentativa de se chegar a uma grande história, juntando de alguma maneira todos os episódios que vão surgindo. É um objetivo de vocês?
Até isso está um pouco em aberto. Cada história que a gente abre tem mais ou menos uns 20 minutos. Elas se conectam ou não. Acho que quando são boas, não importa muito se estão conectadas. Buscamos essa conexão: às vezes fica óbvia, às vezes indireta e às vezes não acontece. A meta não é fazer, embora quando aconteça tenha a sua beleza. Assim como podemos fazer quatro história que não tem nada a ver, mas que às vezes o assunto se cruza. Algum cruzamento tem, eu acho, confio um pouco nisso, porque somos nós que estamos fazendo, então tem alguma coisa que não se apaga. Uma historia está aqui, depois eu estou fazendo um outro personagem, mas aquela carga está ali, o povo acabou de ver a história anterior, ele associa uma coisa a outra. Então, eu não tenho frustração quando a ligação fica muito óbvia.
Qual a diferença entre o Fonseca, seu palhaço no Jogando, e você como improvisador no Improvável e no Caleidoscópio?
Tem diferentes aspectos, uns mudam muito e outros mudam pouco. Tem uma vivacidade do palhaço que eu escolhi manter como improvisador. Que é uma energia que valoriza a qualquer coisa, que é capaz ou tem a pretensão de se divertir e dar importância para coisas aparentemente não importantes. Uma diferença básica: o palhaço do Jogando está aberto para pegar a história que foi contada e em função dela fazer uma piada, desvirtuar o sentido da história pela piada. No Caleidoscópio não. No Jogando eu pego uma piada que talvez faça um strike com toda a cena só pra arrancar risada. Um exemplo clássico: estou sendo tratado o tempo todo como mãe de alguém e aí, como sei que o público vai se divertir com isso, eu digo: “Mas eu sou seu pai!”. O público talvez gostasse, mas eu jogaria aquela história fora, jogaria aquela relação toda fora. Estou dizendo para o meu colega que tudo o que você está construindo não é verdade. É uma coisa que eu não busco no Caleidoscópio, essa é uma diferença. A disposição a fazer rir é muito mais forte no Jogando. Embora possa fazer rir sem destruir as histórias que está fazendo, mas essa é uma questão bem interessante.
O Caleidoscópio foi tratado pelo Márcio Ballas como um espetáculo de “humor e lirismo”. O que você acha, é isso mesmo?
Engraçado, poesia eu acho que é uma coisa que nós reconhecemos, não anunciamos. Fazemos alguma coisa e o público reconhece poesia naquilo. Claro, sem hipocrisia, nós buscamos, mas deixamos as coisas acontecerem porque algumas são mais carregadas de poesia. Poesia é 50% do que eu estou propondo e 50% do teu olhar. Tem que ter desejos e olhos para vê-la. Eu acho um espetáculo cômico, de universos excêntricos, pouco óbvios no cotidiano, e a poesia é uma conseqüência, acho que é um espetáculo de humor e poesia. No humor nós somos mais artesão, a poesia é um aspecto que o público completa mesmo.
Como você participa dos três espetáculos é inevitável perguntar: prefere estar em cena em algum?
Exercitar a forma de improvisar do Caleidoscópio me convida a ver o Jogando de uma forma diferente. E o Jogando me ajuda a ver o Caleidoscópio de uma forma diferente. Cada vez de uma forma mais madura, até porque ele é novo. Quando estou fazendo esse um gosto desse um, é a única coisa. Como improvisador a gente é assim. Essa entrevista é a coisa mais importante pra mim agora, porque é o que está acontecendo.